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Manuscrito das Cinzas — 5. Aquilo que ainda não sei

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Este é o capítulo mais honesto e, por isso, provavelmente será o primeiro a ser arrancado.

  • Não sei a natureza profunda do Outro Lugar nem a origem de [...], do Grande Mecanismo e da Clepsidra dentro dele.
  • Não conheço o conteúdo completo do núcleo inviolável.
  • Não sei a fórmula exata que limita a separação planar de cada indivíduo.
  • Não sei se todo dano sofrido por um duplo onírico pode alcançar o original.
  • Não existe ainda um mapa global definitivo com posições, fronteiras, distâncias e rotas de todas as sociedades.
  • A localização, a função e o estado da única ruína flutuante de Kišar continuam sem consolidação.
  • Os nomes próprios e as instituições dos quatro povos de Zarqād ainda não estão todos registrados aqui.

Mistério deliberado não é erro. Lacuna não é licença para preencher qualquer coisa. E uma resposta antiga não merece sobreviver só porque foi a primeira.

Se este livro parece contraditório, talvez esteja. Parte dele foi escrita antes que eu soubesse formular as perguntas; parte, depois que respostas demais se tornaram perigosas. Eu corrijo o que posso. O Manuscrito corrige o resto, inclusive quando não deveria.

A vida não prevalece porque vence todas as guerras. Prevalece porque transforma ruína em condição de outra coisa. Às vezes essa outra coisa é pior. Ainda assim, a possibilidade permanece.

Antes de seguir o céu, olhem debaixo dos próprios pés. Há raízes sob Iškar. Há mortos nelas. Há um mundo inteiro sustentado por coisas que quase ninguém se dispõe a lembrar.

— Šaharil