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Ñalura — Povo do Trânsito

Povo: Ñalura.

Título tradicional: Povo do Trânsito.

Conceitos centrais: fluxo, corrente, dança, margem, ponte e circulação.

Os naluranos não dizem que o mundo começou quando alguma coisa foi criada.

Dizem que começou quando alguma coisa fluiu.

Antes do primeiro fluxo existia Ypyrá-Pytũ, o Oceano Turvo.

Era uma condição sem borda, direção, margem ou passagem.

O horror primordial não era a morte.

Era um universo inteiro no qual nada podia transitar.

O primeiro movimento surgiu com os Pirá-Jeroky, os Peixes-Dança.

Eles não criam por decreto nem governam como reis.

Dançam.

Ao dançar, produzem corrente.

Nenhum deles dança sozinho.

A primeira lei divina da tradição nalurana afirma:

Todo fluxo sustentado nasce de uma relação.

Um peixe sozinho move-se.

Dois peixes em dança criam corrente.

A dança sagrada recebe o nome de Mbojeroky.

Ela não existe para ser contemplada como espetáculo.

Existe para manter o mundo em movimento.

Pares diferentes sustentam relações como:

  • vida e morte;
  • tempo e espaço;
  • alto e baixo;
  • ida e retorno;
  • margem e curso;
  • estrela e esfera.

Um princípio inteiramente isolado tende à tirania.

Princípios em relação podem produzir mundo.

Os grandes fluxos recebem o nome de Syry.

A primeira corrente separou matéria celeste e matéria mundana sem destruir ambas.

A segunda estabeleceu relações entre tempo e espaço.

Outras correntes abriram diferenças entre alto e baixo, oceano e céu, margem e travessia.

O mundo nalurano não se organiza por tronos cósmicos.

Organiza-se por circulação.

As passagens entre oceanos recebem o nome de Y-Jopói, Pontes d’Água.

Podem manifestar-se como:

  • chuva;
  • neblina;
  • arco luminoso;
  • tromba d’água;
  • sonho;
  • rota impossível;
  • passagem reconhecida por mortos, deuses ou navegadores.

Uma ponte não liga necessariamente lugares seguros.

Liga margens diferentes.

Toda ponte verdadeira contém risco de vertigem.

A tradição ensina que ninguém existe apenas em torno de si.

Toda cidade possui:

  • eixo interno;
  • órbita externa.

Todo povo precisa organizar-se internamente e relacionar-se com outras sociedades.

Quando uma comunidade ignora qualquer uma dessas dimensões, adoece.

A ideia de trânsito influenciou:

  • pontes;
  • portos;
  • barcas;
  • aquedutos;
  • mercados;
  • tratados;
  • casamentos;
  • funerais;
  • escolas;
  • migrações.

Uma ponte não é apenas construção.

É toda estrutura que permite atravessar uma condição de vulnerabilidade sem ser abandonado no meio da passagem.

A ideia de passagem também pode ser usada para justificar abusos.

Conquista, ocupação, imposto, deslocamento forçado e destruição ambiental podem ser apresentados como caminhos necessários.

Por isso a tradição precisa distinguir:

  • passagem;
  • captura;
  • ligação;
  • domínio;
  • trânsito;
  • expulsão.

Nem todo movimento é liberdade.

Civilização começa quando alguém pode deixar uma margem sem ser traído antes de alcançar a outra.