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Senkara — Povo da Veia Viva

Povo: Senkara.

Título tradicional: Povo da Veia Viva.

Conceitos centrais: sangue, corpo, vestígio, transformação, herança e comunhão.

A tradição senkariana reconhece que muitas dimensões da pessoa não podem ser diretamente tocadas:

  • vontade;
  • lembrança;
  • vida;
  • nome;
  • identidade.

O corpo, porém, possui peso, forma e cicatrizes.

Dentro dele corre o sangue.

Por isso muitos antigos confundiram sangue, vida, Alma e pessoa.

A tradição da Veia Viva rejeita essa equivalência.

O sangue não é a vida.

Um morto ainda pode sangrar.

O sangue não é a Alma.

Pode ser removido, dividido, armazenado ou misturado sem que a pessoa inteira acompanhe cada porção.

O sangue não é a pessoa.

Não consegue declarar sozinho:

Eu sou aquele que fui.

O sangue testemunha a passagem da pessoa pelo mundo.

Nele podem permanecer vestígios de:

  • corpo;
  • ancestralidade;
  • transformação;
  • doença;
  • disciplina;
  • violência;
  • cuidado;
  • medo;
  • desejo;
  • contato com forças divinas.

O corpo escreve no sangue sem palavras.

Essa escrita não é completa nem perfeitamente fiel.

Antes de Senkara possuir esse nome, diferentes grupos abriram corpos procurando no sangue aquilo que não encontravam no espírito.

Alguns beberam sangue em busca de força.

Outros tentaram conservar os mortos.

Outros transformaram sangue em oferenda ou instrumento de poder.

Também houve sangue tocado pelo divino.

Ele atravessou corpos mortais e produziu resultados diferentes.

Alguns indivíduos mudaram.

Outros permaneceram como eram.

Alguns transmitiram transformações.

Outros morreram.

Governantes e sacerdotes tentaram explicar a sobrevivência como:

  • dignidade;
  • escolha divina;
  • superioridade de sangue;
  • direito de governo.

A Veia Viva rejeita essas conclusões.

Transformação não é recompensa.

Mutação não é coroação.

Sobreviver não demonstra virtude.

Ser tocado por algo maior não torna alguém moralmente maior que seus semelhantes.

O sangue divino foi um acontecimento.

Transformar acidente em direito significa construir tirania sobre uma ferida.

A herança do sangue é real, mas não absoluta.

Ela pode transmitir:

  • capacidades;
  • predisposições;
  • alterações;
  • riscos;
  • vestígios;
  • relações políticas.

Não transmite automaticamente mérito, culpa, identidade ou autoridade.

Descender de alguém não significa tornar-se essa pessoa.

Carregar uma alteração antiga não obriga o indivíduo a repetir a interpretação construída ao redor dela.

A Veia Viva relaciona indivíduos sem dissolvê-los.

O sangue pode demonstrar parentesco, transformação ou consequência compartilhada.

A comunhão não exige identidade total.

Uma comunidade pode reconhecer continuidades materiais sem declarar que todos possuem a mesma vontade, destino ou valor.

O sangue não é a pessoa.
O sangue testemunha que uma pessoa atravessou o mundo.